Porto, 20 de Março de 1888... «Sei que havia, numa rua bonita, um Teatro chamado Baquet»
Há tragédias que marcam o imaginário de uma época e se transformam rapidamente e durante várias gerações em símbolos da precaridade da vida...
No dia 20 de Março de 1888, há precisamente 106 anos, o Porto viveu uma das mais terríveis tragédias da sua história recente. E o palco do drama foi deveras um palco, o do Teatro Baquet, na rua que era então de Santo António e hoje se chama 31 de Janeiro.

Fachada do teatro Baquet (1875)
Colocada a sua primeira pedra no dia 22 de Fevereiro de 1858, a construção do edifício – cuja planta foi concebida pelo seu primeiro proprietário, um alfaiate portuense de nome António Pereira Baquet – primou pela sua rapidez.
Em menos de um ano, a 13 de Fevereiro de 1859, o novo teatro dava-se solenemente a conhecer com um requintado baile de máscaras, cujo fundo musical esteve a cargo de uma orquestra pedida de empréstimo ao Teatro de S. João e dirigida pelo maestro Medina Paiva.

Livrinhos de coplas de uma zarzuela (1860)
Com a porta principal na Rua de Santo António e uma saída de serviço para Sá da Bandeira, o Baquet não era um edifício excepcional, mas possuía uma fachada agradável, enriquecida com uma varanda em pedra, onde repousavam quatro estátuas, figurando, respectivamente, a Pintura, a Música, a Comédia e as Belas-Artes.
O desenho da frontaria coube a Guilherme Correia e as pinturas da sala foram realizadas por João de Faria Teives. No interior, destacavam-se ainda os panos de boca, ornamentados com perspectivas do Porto.
Mas o que, do ponto de vista arquitectónico, distinguia o Baquet de outros teatros era o facto de estar, por assim dizer, enterrado. A primeira das suas três fiadas de camarotes ficava ao nível da rua, e à plateia descia-se por duas escadarias laterais.
Quando faleceu António Pereira Baquet, em 1869, a notoriedade do seu teatro já ultrapassara as fronteiras nacionais. Entre muitos outros nomes sonantes dos meios musicais de Oitocentos, apresentou-se aqui o célebre virtuoso espanhol do violino, Sarazate, que viria a ter no pianista português Viana da Mota um dos seus colaboradores regulares. E terá sido também no Baquet que, pela primeira vez, se representaram operetas interpretadas por companhias portuguesas.

Emília das Neves - Actriz do Teatro Baquet (1860)
Mas esta história que se pretende aqui contar é apagada de brilhos, a "história de uma noite desenrolada sob a asa do destino"...
O vento soprava veloz à entrada da Rua de Santo António e os transeuntes, com abafos de inverno, rumavam quase todos para o mesmo destino: a fachada iluminada do Teatro que anunciava um espectáculo único para essa noite - Os Dragões de Vllars (opereta cómica) e a Gran Vía (zarzuela de frederico Chueca e Joaquín Valverde, traduzida e adaptada por Guedes de Oliveira).
O Maestro Ciríaco Cardoso dirigia a orquestra. A casa estava lotada.

Maestro Ciríaco Cardoso
A Gran Vía reproduzia sobre o palco do Baquet um sátira política contra a demolição dos velhos quarteirões de Madrid em prol de uma nova e sofisticada artéria na cidade (analogia óbvia com a cidade de Lisboa que inagurara a sua primeira avenida em 1886).
Antes da passagem ao último quadro, o público, delirante, pedia um encore da última cena. Nos bastidores, um actor que aguardava o momento de reentrar em cena reparou que o tecto fingido do cenário estava a arder. Gritou que descessem a bambolina e a grande tela do quadro seguinte voltou a desenrolar-se com um estrondo.
Ninguém se aperebeu do que se estava a passar... apenas alguma agitação sob o cenário e um vago crepitar...
Poucos segundos depois os ocupantes do camarote 24 situado mesmo por cima do palco dão-se conta do perigo e saem corredor fora largando um deles o grito «Fogo!». É então que a sala inteira acorda do encantamento da música e das luzes...
... e começa a trágica confusão...
O horror estampado em todos os rostos que corriam pelas coxias sem esperar o alarme. Muitos espectadores esbarram com quem sai das primeiras filas, acumulando-se no fim do estreito corredor para a Rua de Santo António. Aí vão sendo empurrados e pisados por quem está atrás, numa onda de terror apertada e às escuras (o gás é imediatamente desligado, deixando o teatro imerso em trevas)...
Alguns quinze minutos após ter sido detectado o fogo, já caíra o tecto do palco e a fachada que dava para Sá da Bandeira ameaçava ruir a todo o momento. As chamas começavam a lamber os prédios vizinhos, obrigando os respectivos inquilinos a abandonar apressadamente as suas casas. Vários populares atravessaram as chamas para resgatar crianças e mulheres que ainda se encontravam no interior do teatro. Da varanda do edifício, vários espectadores lançaram-se à rua, quebrando braços e pernas.

Incêndio no teatro Baquet (1888) - entrada por Sá da Bandeira
Os bombeiros voluntários chegavam à Rua de Sá da Bandeira onde combateram as chamas, visto ser essa a entrada «oficial» do teatro. Só mais tarde se lembraram de ir acudir à porta de Santo António... onde atónitos os bombeiros confirmaram a existência de um autêntico mar de corpos carbonizados...

Interior do Teatro Baquet após o incêndio (1888)
Não se sabendo mesmo ao certo quantas pessoas haviam perecido no fogo (mais de uma centena), foi decidido que se faria um funeral colectivo na noite de 23 de Março, no Cemitério de Agramonte, num jazigo monumental e comum, construído com bocados de escombros, ferros retorcidos dos camarotes e colunas chamuscadas.

Exéquias fúnebres em homenagem as falecidos na Igreja da Lapa (Gravura)
Nos dias seguintes à tragédia, realizaram-se inúmeras iniciativas destinadas a recolher fundos para auxílio das famílias enlutadas. A mais importante foi, provavelmente, a Matinée da Imprensa Portuense, no Palácio de Cristal, a que assistiram a rainha D. Maria Pia e o infante D. Afonso. As orquestras do Baquet e do Teatro do Príncipe Real (hoje de Sá da Bandeira) actuaram em conjunto, e Bordalo Pinheiro associou-se ao evento dispondo-se a realizar "caricaturas instantâneas" de personalidades conhecidas.
Após a "matinée", D. Maria Pia percorreu durante quatro horas as casas dos parentes das vítimas, distribuindo generosamente libras de ouro. O líder do Partido republicano, Alves da Veiga, foi um dos visitados, não porque lhe tivesse morrido alguém, mas porque recolhera dois órfãos de um dos mortos do Baquet. João Chagas, que viria a colaborar com Alves da Veiga na intentona do 31 de Janeiro, acompanhou a visita e deixou-nos a descrição pormenorizada desse tocante "momento de conciliação de dois princípios", que reuniu num acto solidário a máxima representante da monarquia e o chefe da oposição republicana.
O Teatro Baquet passou assim à história, envolto numa capa de lenda e de tristeza... imortalizando-se um palco de emoções, luxo e fantasia...